quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

HAMBÚRGUERES versus VALOR

Escrito por Marcel, membro do grupo comunista Kämpa Tillsammans! e por G. Dauvé [1]
Trecho do Marcel

Este texto tem dois objectivos. O primeiro é tentar despertar o interesse para a luta de classes que se trava diariamente em todos os locais de trabalho. Tentarei mostrar que algo tão banal e pouco fascinante como trabalhar num restaurante – ou melhor, as pequenas e secretas lutas contra o trabalho assalariado que ali se travam – é parte integrante do movimento comunista [2]. O outro objectivo é mostrar que noções teóricas como capital, comunismo, valor de uso e valor de troca não são algo meramente abstracto e académico mas sim algo concreto que influencia a nossa vida e que é influenciado por nós.

FAZER HAMBÚRGUERES

O meu último trabalho foi numa hamburgueria privada. Embora o restaurante não pertencesse a nenhuma multinacional como o McDonald’s ou o Burger King era bastante grande e estava aberto todos os dias da semana – só fechava entre as sete e as dez da manhã. A maior parte das pessoas que lá trabalhavam eram adolescentes ou tinham – como eu – vinte e tal anos, e eram sobretudo raparigas. A maioria tinha outros empregos ou ainda andava a estudar enquanto trabalhava no restaurante. Os empregados estavam sempre a entrar e a sair. Não estavam satisfeitos com as condições de trabalho ou achavam que os salários eram demasiado baixos. A maior parte do pessoal trabalhava ilegalmente e tinham de trabalhar mais de um ano para poderem assinar um contrato normal e para receberem também um salário normal. Antes disso todos eram aprendizes com salários muito mais baixos. E ser um aprendiz significava também poder ser despedido sempre que bem apetecesse ao patrão. A maior parte das pessoas que ali trabalhavam não aguentavam no restaurante mais do que alguns meses. Estávamos sempre todos à procura de outros trabalhos ou de outras maneiras de ganhar dinheiro.

Muita gente achava que, para os empregados, as condições eram melhores ali do que por exemplo no Macdonald’s. E pensavam assim porque o restaurante não pertencia a nenhuma grande empresa mas a uma única pessoa e também porque corriam boatos de que o dono dava dinheiro a equipas de futebol e a associações de caridade. Mas nós, os que lá trabalhávamos, sabíamos que isto não era verdade. Algumas pessoas de esquerda chegaram a ter o atrevimento de me dizer que era bom eu trabalhar no restaurante por este não ser nenhuma empresa multinacional e também por causa dos boatos sobre a filantropia do proprietário. Não percebiam que o conflito entre proletariado e capital tem lugar em todos os locais de trabalho, tanto num restaurante como numa fábrica, nas pequenas e nas grandes empresas, privadas ou do estado. Enquanto houver trabalho assalariado haverá sempre capital e enquanto houver capital haverá sempre resistência a este. Esta resistência, a luta de classes, não é visível apenas em formas dramáticas de resistência como greves, ocupações e motins, mas também nas pequenas tentativas de fugir ao trabalho e nas lutas secretas contra o valor como os roubos, a sabotagem e a greve de zelo (forma de luta na qual os trabalhadores seguem todas as regras e não fazem nenhum trabalho extra, resultando em trabalho lento com pouca produtividade). Esta pequena e secreta resistência ao trabalho assalariado tem sido representada como a imagem de  térmitas que lentamente corroem os alicerces sobre os quais assenta o capitalismo [3]. Na Kämpa Tillsammans! chamamos a estas lutas “resistência sem rosto” pois uma das suas características é não terem rosto e serem invisíveis, o que muitas vezes as torna também invisíveis para alguns dos que se dizem  revolucionários.

O COMUNISMO COMO MOVIMENTO

O trabalho assalariado é sempre exploração. Claro que as condições de trabalho num restaurante sueco são muito melhores do que, por exemplo, as condições de trabalho de uma criança numa fábrica de sapatos da China. O problema é que só temos um mundo, onde as condições de trabalho e a exploração dos trabalhadores na Suécia e na China estão intimamente relacionadas. Se queremos seriamente mudar o mundo temos de atacar as bases sobre as quais se apoia o capital, nomeadamente o trabalho assalariado.
O problema central do capital é pôr as pessoas a trabalhar de forma a estas poderem criar valor. Sob o capital, o trabalho enquanto actividade humana e os meios de produção são separados dos seres humanos pela apropriação privada e somos, assim, forçados a vender a nossa força de trabalho para sobrevivermos. A nossa actividade humana é roubada pela economia que a separa de nós. Isto faz-nos esquecer que somos de facto nós, através das nossas relações sociais uns com os outros e das nossas acções, que criamos o mundo. O capital é um monstro criado pelo homem, não é nenhum fantasma misterioso que flutua sobre as nossas cabeças para além do nosso alcance. A crença generalizada de que as pessoas não podem mudar o mundo e nem sequer a sua vida quotidiana advém desta separação. O sentimento de inércia e de falta de sentido também se pode atribuir ao facto da nossa actividade estar separada de nós e de estar virada contra nós como uma força estranha. Como disse alguém, a noção de Marx de que a humanidade toma consciência de si própria através desta actividade tornou-se tão estranha que pertence a outro mundo.

Esse mundo – o comunismo – mostra-se nas lutas e nas actividades que combatem o capital nos locais de trabalho, nas escolas, nas ruas e nos lares não como uma sociedade, claro, mas como uma tendência – como um movimento. Se o comunismo é um movimento que se revela mesmo à frente dos nossos olhos então temos que o procurar.

Se somos tão cegos que não percebemos a importância da luta diária de classes, por mais fraca e isolada que esta seja, então nunca poderemos dar-nos conta de que a dinâmica por detrás destas permanentes lutas e actividades é nada mais, nada menos, do que o próprio comunismo. Esta resistência diária é até, nos piores casos, desprezada como algo que não é mesmo nada interessante. Para aqueles que defendem esta perspectiva apenas contam as lutas heróicas e pomposas, como as grandes greves ou as ocupações dos locais de trabalho. Ou não se interessam pela sua importância para os trabalhadores ou não percebem estas resistências. Não percebem que a “resistência sem rosto” é feita dia após dia contra o capital e contra o trabalho assalariado e que por vezes pode até ser mais eficaz do que essas “guerras abertas” e que é, também, o primeiro passo importante na direcção de uma maior e mais vasta comunidade de resistência ao capital. Que o comunismo esconda a sua face atrás destas lutas é algo em que nunca acreditariam – nem mesmo nos seus sonhos mais loucos. Para eles o comunismo é um sistema económico que se constrói, não é um movimento que nasce do ventre da velha sociedade, nem uma actividade que fundamentalmente altera a relação das pessoas com o mundo, com as outras pessoas, com a própria vida.

TENTATIVAS DE FUGA AO TRABALHO

Como disse antes, os empregados estavam sempre a entrar e a sair do restaurante. A maior parte deles apenas lá trabalhava durante alguns meses e depois desistia. Muitas vezes arranjavam outro emprego ou simplesmente fartavam-se de ali trabalhar. Quando eu trabalhei no restaurante apenas o patrão, o filho dele e os amigos do filho ali estavam há mais de dois anos. A oposição entre os “novos” (a maior parte das pessoas que ali trabalhavam) e os poucos que lá estavam há muito tempo tornou-se óbvia desde o primeiro dia de trabalho. Isto era muito claramente visível pois era o filho do patrão e os amigos dele que faziam os horários de trabalho e que, por isso, ficavam sempre com os melhores turnos. Nós – os que tínhamos começado há pouco tempo – mas também alguns empregados que já lá trabalhavam há alguns meses ou há até um ano ficávamos com os turnos maus, principalmente com as noites, e em particular com as noites de Sexta e de Sábado. Eles também iam contar ao patrão tudo o que nós fazíamos e diziamos por isso cedo começaram a ser vistos como os espiões do patrão. Também nos diziam quais as regras do restaurante – por exemplo, que não era permitido conversarmos acerca dos salários nem compará-los uns com os outros. Claro que isto significava que a primeira pergunta que fazíamos a alguém novo quando o/a conhecíamos era quanto ganhava.

Os “novos” (a maior parte dos que ali trabalhavam e que ali estavam há menos de um ano) não se identificavam com o trabalho nem com o local de trabalho. Estávamos ali porque precisávamos de dinheiro e falávamos abertamente acerca disto. Os novos eram também muito abertos uns com os outros acerca do facto de todos, nas variadas formas pessoais, tentarmos fugir ao trabalho.

Eu e dois colegas criámos algo que pode ser comparado a um grupo de afinidade. Não era algo que tivéssemos planeado, embora tivéssemos conversado como é óbvio acerca de não gostarmos do trabalho, de acharmos os salários muito baixos etc. Mas nunca tínhamos falado sobre a criação de actividades contra o trabalho – isto aconteceu da forma mais espontânea possível. A primeira coisa que fizemos juntos foi picarmos o ponto um em vez do outro. Não me lembro de quem fez isto pela primeira vez, mas esta pequena tentativa de fuga ao trabalho foi algo que continuámos e que passámos a planear em conjunto. Isto significava que dois de nós podíamos chegar muito tarde ao trabalho e ser pagos pelo tempo que não tínhamos lá estado. Também funcionou muito bem para a pessoa que trabalhava sozinha porque no início dos turnos de trabalho muitas vezes não havia nada para fazer. Tínhamos de ter muito cuidado para não sermos apanhados pelo patrão nem pelos seus pequenos “espiões”. Depois disto começámos a tirar dinheiro da caixa registadora para podermos jogar “pinball” ou ouvir música da “jukebox”, ou às vezes para levarmos o dinheiro para casa. Uma das regras do patrão era, claro, que não podíamos ouvir música nem jogar “pinball” no trabalho (mesmo que pagássemos com dinheiro nosso) mas claro que não lhe obedecíamos. Se não tirássemos demasiado dinheiro da caixa o patrão não reparava em nada porque dava uma pequena margem para permitir que as pessoas registassem o preço errado. Outra forma de arranjarmos dinheiro era registar o preço errado nas caixas para que o patrão nem sequer notasse que o dinheiro tinha desaparecido. Quando jogávamos “pinball” ou quando éramos simplesmente preguiçosos não podíamos descurar demasiado os clientes, pois muitos deles eram amigos do patrão.

Os principiantes trabalhavam com outros dois colegas no turno da noite, mas quando o patrão achava que já tínhamos aprendido o mais importante passávamos a trabalhar apenas com mais uma pessoa, o que significava que tínhamos muito mais trabalho. Para resistirmos a isto fazíamos muitos pequenos “erros” para que o patrão achasse que ainda não estávamos preparados para trabalhar em pares. Claro que era muito importante que não cometêssemos erros demasiado grandes – nesse caso perderíamos o emprego. Tínhamos de ter cuidado. Esta tentativa de fuga ao trabalho foi criada por um erro. Um dia ao fim da tarde tínhamos muito que fazer e por isso não conseguimos ter pronto tudo o que devíamos ter antes de começar o turno da noite. Tivemos de trabalhar cerca de quinze ou vinte minutos extra e de lavar os últimos pratos, encher os recipientes da comida, etc. O patrão trabalhava em todos os turnos da noite por isso fazíamos estes erros com muita frequência, o que significava que trabalhávamos talvez uns quinze ou vinte minutos extra mas que ainda podíamos ser três a fazer o turno da noite, o que tornava o dia de trabalho mais fácil e mais divertido.

Todas estas pequenas tentativas de fazer com que o dia de trabalho se tornasse mais divertido e menos alienante eram algo que tentávamos espalhar e fazer circular por outros colegas de trabalho com quem habitualmente não trabalhávamos. Não o fazíamos a conversar abertamente sobre como fugir ao trabalho, mas tentávamos fazer com que as actividades falassem por elas próprias e depois disso podíamos ser mais abertos sobre estas. Claro que muita gente já fazia isto. Partilhávamos gorjetas e todos tinham a sua maneira própria de fazer com que o dia de trabalho fosse menos aborrecido e mais divertido. Eu, por exemplo, partilhava as experiências do nosso pequeno “grupo de afinidade” sobre como atrasar o dia de trabalho com as outras pessoas com quem trabalhava, de forma a que o patrão pensasse que tinha de haver três pessoas nos turnos. A maior parte de nós pensava que era melhor acabar um pouco mais tarde do que ter de trabalhar mais arduamente durante todo o dia. Uma das grandes fraquezas (para além de serem todas muito defensivas) das nossas tentativas de fuga ao trabalho era que nem sequer tentámos envolver mais pessoas, especialmente aqueles que já ali trabalhavam há mais tempo do que nós. Admitimos simplesmente que eram todos leais ao patrão e ao local de trabalho.

COMUNICAÇÃO, COMUNIDADE E JOGO

Falarmos uns com os outros, a comunicação, era obviamente uma forma importante de nos divertirmos mais no local de trabalho. Para mim tornou-se mais importante quando os outros dois rapazes do meu “grupo de afinidade” deixaram de trabalhar no restaurante. A minha situação de trabalho alterou-se drasticamente porque eu não sabia em quem confiar nem com quem contar. Claro que, como expliquei, a maior parte das pessoas faziam coisas parecidas ao que eu fazia com os meus amigos mas havia algumas que iam contar ao patrão e ao filho dele o que se fazia contra o restaurante. Uma das melhores maneiras de descobrir se podia confiar ou não em alguém era, claro, conversar acerca daquilo que não podíamos falar. Como por exemplo comparar os salários ou perguntar a alguém se trabalhava “ilegalmente” (sem pagar impostos) e se trabalhava que percentagem do dia é que era ilegal. Quando alguém falava acerca disto mostrava sempre de que “lado” estava. Quem não falasse no assunto não era de confiança. Se a pessoa respondesse à pergunta podíamos continuar para o passo seguinte. Por exemplo, eu atrevi-me a roubar dinheiro da caixa – uma coisa que antes tinha feito quase só no meu “grupo de afinidade”, com muito mais pessoas. Fazer estas pequenas coisas ilegais e secretas criou um sentido de comunidade e solidariedade entre nós e uma forma de resistência que estreitou este sentimento de comunidade e que nos uniu foi a questão de saber quem organizava o trabalho e de como este deveria ser organizado. O patrão geralmente vinha aos turnos e dizia-nos como devíamos trabalhar. Ele queria dividir o trabalho para uma pessoa ficar na cozinha, outra lavar os pratos e ainda outra fazer os hambúrgueres. Isto significava que estávamos todos isolados uns dos outros e que fazíamos coisas sozinhos. Felizmente quase ninguém obedecia a estas regras – mal o patrão se ia embora organizávamos as tarefas em conjunto e ajudávamo-nos uns aos outros. Isto pode não parecer importante, ou pode ser visto como uma semente de uma futura auto-gestão do capital. Mas não era este o caso pois criou-se uma comunidade importante entre nós e o dia de trabalho tornou-se mais fácil e divertido. Era uma forma de resistência ao aborrecimento e à alienação e uma forma de se trabalhar menos. Era um meio, não um fim. Se tivéssemos arranjado um emprego melhor ou conseguíssemos dinheiro de outra forma, ou ainda se pudéssemos fazer parte de um movimento mais geral e mais aberto que procurasse abolir o capital, então penso que teríamos deixado o restaurante, não teríamos tentado organizar nós próprios o trabalho.

Todos os que ali trabalhavam tinham diversas formas pessoais de criar um dia de trabalho mais aliciante e divertido e de tentar criar uma espécie de comunidade. Muitas vezes faziam-se coisas que não pareciam ter nenhum objectivo nem nenhum significado além de serem divertidas. Mas muitas vezes estas coisas eram um ataque indirecto ao local de trabalho. As pessoas tentavam brincar e servir-se dos produtos no local de trabalho para proveito próprio, em vez de os venderem. Por exemplo, alguns miúdos novos costumavam divertir-se a mergulharem no óleo a comida que não era para ser frita assim porque achavam que era divertido brincarem com a comida. Uma rapariga costumava brincar com a comida e fazer uma série de números de circo bastante impressionantes com ela.

Outra fazia experiências com os molhos e punha uma série de especiarias dentro deles, muitas vezes tantas que tinham de ser deitados fora (quando o patrão descobriu isso ficou mesmo furioso). Todos tentavam usar os produtos à sua maneira. Em vez de os vendermos, usávamo-los e divertíamo-nos com eles de várias maneiras próprias, estranhas e por vezes infantis. Esta era uma pequena tentativa de conseguirmos controlar a actividade que nos tinha sido roubada e de animar os dias de trabalho – actos contra a alienação e o aborrecimento no trabalho.

A LUTA CONTRA O VALOR

Na sociedade capitalista um hambúrguer é como todos as outras mercadorias, não é valioso porque pode ser usado mas sim porque pode ser vendido. Um hambúrguer não tem valor porque se pode comer mas porque pode ser vendido a alguém que tenha fome. No sistema capitalista as coisas não têm apenas um valor de uso (como o de um hambúrguer que pode ser comido) mas também têm um valor de troca (o hambúrguer, como todas as outros mercadorias, pode ser vendido). Isto não é algo “natural”, como o capitalismo nos quer fazer acreditar e, de facto, há um grande conflito na sociedade entre estas duas condições.

O comunismo é uma actividade que, entre outras coisas, tenta suprimir o valor de troca. Significa a criação de uma comunidade humana onde as actividades humanas, entre outras coisas, verão as coisas como valores de uso e não como valores de troca como acontece no capitalismo. Isto pode ser visto claramente na luta de classes.

A luta de classes é dirigida contra a mercadoria e contra o valor de troca. No restaurante isto tornava-se claro quando nós tentávamos usar as coisas que ali encontrávamos directamente, sem mediação, para as nossas necessidades, por mais estranhas que estas necessidades pudessem parecer. Por exemplo, os miúdos que gostavam de mergulhar a comida em óleo a ferver até a estragarem ou a rapariga que fazia malabarismo com os alimentos. Mas talvez as alturas mais visíveis em que tentámos usar as coisas como valores de uso e não como valores de troca tenham sido quando roubámos a comida ou outras coisas do local de trabalho. Isto era muito arriscado porque o patrão tinha um controlo muito apertado sobre as mercearias e sabia quanta comida se compravam cada dia, mas de tempos a tempos havia roubos. A sabotagem no restaurante era também dirigida contra a transformação capitalista das coisas em mercadorias e em valores de troca. Uma vez destruímos muita comida (mercadorias, valores de troca e naquele caso também valores de uso porque o patrão tinha sido muito irritante para nós. Eu e outro rapaz estávamos muito zangados não só com o patrão mas com aquela situação toda porque detestávamos o sítio, por isso fomos ao frigorífico, tirámos de lá um monte de caixas e destruímo-las. Isto pode ser visto como um acto bastante irracional e insignificante mas para nós, na altura, soube muito bem e foi um grande alívio. Depois de termos feito isso pusemos as caixas que tínhamos destruído outra vez no frigorífico e pusemos outras caixas e mais coisas em cima delas, para que demorasse algumas semanas até que o patrão ou outros descobrissem, e nessa altura ninguém conseguiria saber quem tinha feito aquilo. A sabotagem e a destruição de mercadorias eram menos comuns do que outras coisas – por exemplo, do que os roubos. Mas de cada vez que aconteciam nós reparávamos que o patrão ficava muito intimidado e se comportava de forma mais “correcta” para connosco depois de alguém ter destruído algo. Outra coisa que acontecia e que era dirigida contra o valor era registarmos o preço errado na caixa registadora. Não o fazíamos para chatear o patrão mas sim porque pensávamos que era demasiado caro comer ali e porque essa era outra forma de criar uma pequena comunidade entre nós. Não uma comunidade de trabalhadores mas sim de proletários que estão fartos de serem proletários, uma comunidade (por mais pequena e isolada que fosse) de actividades dirigidas contra o trabalho e o valor, contra as próprias condições que tornam os seres humanos proletários.
A luta contra o valor pode ser vista em todas as partes da sociedade, dos roubos no trabalho e do saque de lojas até às ocupações de casas e locais de trabalho. O comunismo é uma actividade que aspira a ser tão poderosa que destrói o valor através da apropriação, pela humanidade, do seu trabalho e dos meios de produção dos quais está separada.

O PATRÃO

Embora a maior parte de nós, que trabalhávamos no restaurante, não gostássemos do patrão nem da sua maneira de nos fazer trabalhar mais, não podíamos deixar de sentir alguma pena e simpatia por ele. Trabalhava todas as noites da semana, e apenas tirava férias uma vez por ano durante uma semana ou duas. Todos nós trabalhávamos às vezes com ele e ele costumava andar sempre pelo restaurante por isso, quer quiséssemos quer não, todos tínhamos uma ligação pessoal com ele. Para alguns – poucos – isto gerou o sentimento de que deviam ajudá-lo e passaram a identificar-se com o local de trabalho. Sentiam que o restaurante era deles tanto como do dono. O restaurante não andava muito bem financeiramente e era, de facto, o dono o que trabalhava mais de nós todos. Muitas vezes nos perguntávamos porque trabalhava ele tantas vezes e tão duramente. Não precisava de trabalhar todas as noites para sobreviver. Chegámos a desejar que ele passasse mais tempo com a família de quem falava a noite inteira. Ao princípio eu só via estas coisas como uma espécie de “moralidade escrava” burguesa e encarava-as como um obstáculo – que, num certo sentido, eram. Todos nós estávamos ligados a ele emocionalmente. No entanto, passado um tempo eu percebi que isto apenas afectava marginalmente as nossas actividades contra o trabalho assalariado. Éramos guiados pelos nossos próprios interesses e necessidades, o que não significava que não tivéssemos pena do nosso patrão e lhe desejássemos outra vida. A nossa repulsa e a nossa resistência eram dirigidas contra o local de trabalho em si, e não contra o patrão. A essência do conflito era sobre o facto de termos de lá estar para recebermos dinheiro. Queríamos fazer outras coisas, estar com aqueles de quem gostávamos, brincar na praia ou fazer mais coisas importantes. Não queríamos trocar o nosso tempo e a nossa vida por dinheiro. Não queríamos trabalho assalariado. Claro que o patrão não era popular, mas o conflito nunca era uma questão de “nós” contra “ele”- era antes uma questão de “nós” contra a relação que nos mantinha prisioneiros no restaurante. Claro que algumas actividades eram direccionadas directamente a ele, mas eram muito poucas. A maioria de nós pensava que seria uma consequência triste o patrão ter de sofrer por causa das nossas actividades que eram contra as relações sociais que nos mantinham ali presos. Não havia vencedores no restaurante – nem o patrão nem os trabalhadores. [4]

UMA ESPÉCIE DE PEQUENO CAPITAL

O restaurante podia ser visto como um pequeno capital. No capitalismo o conflito é sobre coisas muito mais essenciais do que a diferença entre quem possui os meios de produção e quem os não possui, ou do que entre ricos e pobres. Claro que há conflitos reais e diferenças entre quem possui bens e quem não os possui e entre ricos e pobres. E quando o proletariado trava a sua luta contra o capital, tanto escondida como aberta, terá necessariamente de entrar em confronto com os funcionários do capital. Mas não são os capitalistas que controlam o capital, é o capital que controla os capitalistas. Não são apenas os proletários que são intercambiáveis (substituíveis)- os funcionários do capital também o são. No capitalismo os seres humanos não valem nada enquanto humanos. A única coisa importante para o capital é o papel que eles desempenham na sociedade, um papel que pode ser usurpado por outra pessoa se não for devidamente cumprido. A luta de classes não é um projecto à Robin dos Bosques e o proletariado não são apenas os pobres. Dizer que o conflito é entre os ricos e os pobres esconde a verdadeira contradição – entre o comunismo e o capital. E também dá às pessoas uma falsa solução acerca de como o capitalismo pode ser destruído: nomeadamente, diz que apenas temos de acabar com os ricos. Esta é uma formulação que vira a realidade de pernas para o ar; não são os ricos que criam o capitalismo. É o capitalismo que cria a riqueza e, consequentemente, também a pobreza. Ficaremos livres desta diferença se nos virmos livres do capitalismo.
Se não são os ricos que controlam tudo então quem é? É a “lei do valor” que governa o capitalismo e que força tanto os ricos como os pobres a caçarem mais e mais dinheiro. Esta “lei” não pode ser domada – todas as tentativas para o fazer ou falharam ou foram esmagadas. O valor tem que ser destruído ou então vai subjugar-nos a todos. Isto era algo que se podia ver abertamente no restaurante. Claro que o nosso patrão ganhava muito mais do que nós (e nós queríamos mais dinheiro) mas tal como nós – os seus empregados – tínhamos de trabalhar para sobreviver, ele era forçado a acumular valor ou  ir à falência. Nas pequenas empresas o patrão tem muitas vezes de trabalhar ao lado dos empregados, muitas vezes até mais, e mais arduamente do que os seus empregados. O facto de ele ser o dono do restaurante e de ganhar muito com o nosso trabalho criou um verdadeiro conflito entre nós e ele, mas estaríamos enganados se pensássemos que todos os problemas que encontrávamos ficariam resolvidos se simplesmente nos livrássemos do dono.

Mesmo que o restaurante pertencesse ao estado ou se nós, os que lá trabalhávamos, o geríssemos, ainda teríamos de obedecer à tirania do valor e de seguir as leis do mercado e da economia. Isto significa, também, que a maior parte dos problemas que existiam quando o restaurante pertencia a um particular continuariam a existir se este mudasse de donos. Como eu disse antes, o capital governa os governantes e tenta reduzir todos – tanto ricos como pobres – a algo útil para o capital. Apenas tolera aqueles que obedecem ao capital e que são seguidores passivos da economia.

As condições do capital são simplesmente o facto da actividade humana ter sido separada do homem e de sermos nós que alimentamos esta separação através das nossas próprias relações sociais. De facto, se somos nós que criamos o capital também o podemos destruir. O capital sobrevive principalmente devido à nossa passividade (claro que não podemos mudar esta passividade desejando-a ou concordando com ela) mas também tem instituições como a polícia, o exército, a moralidade, e a hierarquia a protegê-lo. Até a esquerda e o movimento dos trabalhadores o apoiam directa ou indirectamente. O programa de esquerda trata fundamentalmente da forma como as pessoas devem gerir a produção. Os sociais democratas e os leninistas querem uma produção controlada pelo estado, os libertários e os conselhistas querem que esta seja possuída pelos trabalhadores e ambos querem distribuir os lucros justa e equitativamente. Claro que o comunismo trata do autogoverno mas é principalmente dirigido ÁQUILO que as pessoas conseguem e têm que gerir.

Se o capital significa passividade na medida em que as nossas actividades não nos pertencem e na medida em que as pessoas não acreditam que podem mudar a sua própria situação, então o comunismo significa actividade e movimento. Um movimento e uma tendência que estão presentes na luta de classes, na velha sociedade que tenta aboli-las e uma actividade que significará o fim das separações e das mediações e, por isso, a destruição do valor, da economia e do trabalho. O comunismo é um mundo sem dinheiro e sem lucro (o que não significa nenhum paraíso na terra nem que as pessoas se tenham transformado em anjos). Significa só um mundo onde a actividade da humanidade pertence à própria humanidade, algo que de certeza irá criar novos e imprevisíveis problemas, conflitos e contradições.

NÓS SOMOS A CONTRADIÇÃO

Trecho de Marcel e Gilles Dauvé

O trabalho é a nossa actividade separada de nós, transformada em algo que estimula a economia e que nos domina. E este processo pode ser alterado porque somos nós quem o alimentamos. Nós somos a contradição. Nenhum trabalho é apenas imposto do exterior. Supõe alguma cooperação da parte das bases, como mostrou o trabalhador da Renault, Daniel Mothé nos seus artigos na revista Socialisme ou Barbarie dos anos cinquenta. Aquilo que descrevemos como pequenos roubos, sabotagem de pequena escala e divertimento (todas estas coisas implicam auto-organização) é, também, aquilo que torna o restaurante suportável. A resistência ao trabalho é uma forma de recuperar alguma da “humanidade” que o trabalho nos rouba: por isso torna o nosso dia de trabalho menos alienante. Negar isto é não compreender como o capitalismo funciona nem porque continua apesar de todos os seus horrores. A auto-organização da vida de trabalho (e das suas lutas) é, paradoxalmente, também a condição para uma possível revolução.

O significado do movimento comunista não reside em ver-se livre dos aspectos dolorosos do trabalho ao transferir o seu fardo para máquinas que trabalham para nós enquanto nós nos refastelamos, escrevemos poemas ou fazemos amor. (Nos tempos antigos, quando existiam poucas máquinas, Aristóteles justificou o trabalho manual escravo pois permitia à elite levar uma vida boa e intelectual). O leitor perceberá que não desejamos uma sociedade onde cada segundo seja um divertimento. Deixemos tais sonhos para Vaneigem.
Isto está relacionado com o conteúdo do trabalho concreto feito num destes restaurantes.

Todos os fast food são a expressão de uma sociedade onde o tempo é dinheiro, e onde os actos vitais humanos como comer têm de ser feitos no tempo mais curto (mais lucrativo) possível. Os hambúrgueres, no entanto, são apenas um exemplo entre muitos . Os bifes (outrora um símbolo da civilização ocidental) são outro meio de rapidamente grelhar e despejar proteínas e calorias suficientes para mandar o apressado homem moderno de volta à sua fábrica ou escritório. E o mesmo se pode aplicar às saladas dos self-services que se tornaram tão populares nos últimos vinte anos. Os bifes transmitem uma mensagem dura, de alguma forma masculina, enquanto as saladas se associam a uma atitude supostamente mais branda, aberta e sem género. E uma empresa multinacional de comida que queira estar na moda pode adoptar o nome de Slow Food

Nós somos o que comemos…É verdade, mas também somos o que fazemos. Nós comemos tal como vivemos e seria ingénuo acreditar que poderia ou iria existir uma maneira melhor de comer, que poderia existir uma e única comida saudável. Mais uma vez espero que o leitor perceba que não defendemos refeições veganas  orgânicas e universais.

[1] Kämpa Tillsammans! significa “Lutemos Juntos!”

[2] Quando afirmo que o comunismo é um movimento, quero dizer que existe como uma dinâmica subjacente à luta de classes ou como uma tendência contida nela. Não vemos na luta de classes a sociedade comunista mas sim um potencial para o comunismo. Qualquer luta contra o capital contém um aspecto universal pois é um protesto contra uma vida desumana e isso é uma semente para uma futura comunidade humana. “ Uma revolução social tem portanto um aspecto universal, porque, embora possa ocorrer em apenas uma zona industrial, é um protesto humano contra uma vida desumana, porque parte do indivíduo singular real, e porque a vida social é a verdadeira vida social do homem, a vida realmente humana.” Mas é importante entender que isto é apenas um aspecto, e também que a semente não consegue crescer em todas as situações.

[3] Esta citação é do grupo indiano Kammunist Kranti. Pode-se dizer que o capital sobreviveu a estes ataques porque as térmitas também trabalham para ele. Isto é verdade, mas também é verdade que o capital precisa e tenta controlar e destruir todas estas lutas secretas. E é também nos conflitos no trabalho, na luta proletária contra o trabalho assalariado que podemos encontrar a actividade emancipatória que nos pode libertar e destruir o capital.

[4] Não quero dizer que o proletariado e os patrões têm os mesmos interesses. Todas as lutas acabam por, de uma forma ou de outra, confrontar os patrões, a polícia, os chefes ou outros funcionários do capital. Quero apenas sublinhar que não são os patrões que controlam tudo e que, no restaurante, a nossa relação com o patrão, de forma paradoxal fortaleceu a “perspectiva” comunista na luta. Tornava-se claro para todos que o inimigo não era o patrão mas que aquilo a que nos opúnhamos era ao absurdo de trabalhar por dinheiro.


Fragmento sobre as máquinas - Karl Marx

A troca do trabalho vivo pelo trabalho objectivado, quer dizer, a manifestação do trabalho social sob a forma antagónica do capital e do trabalho, é o último desenvolvimento da relação do valor e da produção baseada no valor. O pressuposto desta relação é – e continua sendo – que a massa de tempo de trabalho imediato, a quantidade de trabalho utilizada, representa o factor decisivo da produção de riquezas. Ora, à medida que se desenvolve a grande indústria, a criação de riquezas depende cada vez menos do tempo de trabalho e da quantidade de trabalho utilizada, e cada vez mais do poder dos agentes mecânicos postos em movimento durante a duração do trabalho. A enorme eficiência destes agentes, por sua vez, não tem qualquer relação com o tempo de trabalho imediato que custa a sua produção. Depende, antes, do nível geral da ciência e do progresso da tecnologia, ou da aplicação dessa ciência à produção. (O desenvolvimento das ciências – entre as quais as da natureza, bem como todas as outras – é, certamente, função do desenvolvimento da produção material). A agricultura, por exemplo, torna-se uma simples aplicação da ciência do metabolismo material e o modo mais vantajoso da sua regulação para o conjunto do corpo social. A riqueza social manifesta-se mais – e isto revela-o a grande indústria – na enorme desproporção entre o tempo de trabalho utilizado e o seu produto, assim como na desproporção qualitativa entre o trabalho, reduzido a uma pura abstracção, e o poder do processo de produção que ele controla. O trabalho já não surge tanto como uma parte constitutiva do processo de produção; ao invés, o homem comporta-se mais como um vigilante e um regulador face ao processo de produção. (Isto é válido não só para a maquinaria, como também para a combinação das actividades humanas e o desenvolvimento do intercâmbio humano). O trabalhador não mais introduz a matéria natural modificada (em ferramenta) como intermediário entre si e a matéria; antes introduz o processo natural – transformado num processo industrial – como intermediário entre si e toda a natureza inorgânica, dominando-a. Ele próprio coloca-se ao lado do processo de produção, em vez de ser o seu agente principal. Com esta transformação, não é o tempo de trabalho realizado, nem o trabalho imediato efectuado pelo homem, que surgem como o fundamento principal da produção de riqueza; é, sim, a apropriação do seu poder produtivo geral, do seu entendimento da natureza e da sua faculdade de a dominar, graças à sua existência como corpo social; numa palavra, é o desenvolvimento do indivíduo social que aparece como a pedra angular da produção e da riqueza. O roubo do tempo de trabalho de outrem sobre o qual assenta a riqueza actual surge como uma base miserável relativamente à base nova, criada e desenvolvida pela própria grande indústria. Logo que o trabalho, na sua forma imediata, deixe de ser a fonte principal da riqueza, o tempo de trabalho deixa e deve deixar de ser a sua medida, e o valor de troca deixa portanto de ser a medida do valor de uso. O trabalho excedente das grandes massas deixa de ser a condição do desenvolvimento da riqueza geral, tal como o não-trabalho de alguns poucos, deixa de ser a condição do desenvolvimento dos poderes gerais do cérebro humano. Por essa razão, desmorona-se a produção baseada no valor de troca, e o processo de produção material imediato acha-se despojado da sua forma mesquinha, miserável e antagónica, ocorrendo então o livre desenvolvimento das individualidades. E assim, não mais a redução do tempo de trabalho necessário para produzir trabalho excedente, mas antes a redução geral do trabalho necessário da sociedade a um mínimo, correspondendo isso a um desenvolvimento artístico, científico, etc. dos indivíduos no tempo finalmente tornado livre, e graças aos meios criados, para todos. O capital é em si mesmo uma contradição em processo, [pelo facto de] que tende a reduzir o tempo de trabalho a um mínimo, enquanto, por outro lado, coloca o tempo de trabalho como a única medida e fonte de riqueza. Assim que, diminui o tempo de trabalho na forma necessária para aumentá-lo na sua forma excedente; coloca portanto, o trabalho excedente, em medida crescente, como uma condição – questão de vida ou de morte – para o necessário. Por um lado, o capital convoca todos os poderes da ciência e da natureza, assim como da cooperação social e intercâmbio social, com o fim de tornar a criação de riqueza independente (em termos relativos) do tempo de trabalho empregado nela. Por outro lado, o capital necessita de utilizar o tempo de trabalho como unidade de medida das gigantescas forças sociais entretanto criadas desta maneira, e para as confinar dentro dos limites requeridos para manter o valor já criado como valor. As forças de produção e as relações sociais – dois aspectos diferentes do desenvolvimento do indivíduo social – aparecem ao capital como meros meios, e não são para ele mais que meios para produzir apoiando-se na sua base limitada. Na verdade, contudo, elas são as condições materiais para rebentar com essas mesmas bases. “Uma nação é verdadeiramente rica quando em vez de 12 horas se trabalha apenas 6. Riqueza não é dispor de tempo de trabalho excedente” (riqueza efectiva), “mas de tempo disponível, para além do usado na produção imediata, para cada indivíduo e para toda a sociedade”. [The Source and Remedy, etc., 1821, p.6.]
A natureza não produz máquinas, locomotivas, caminhos-de-ferro, telégrafos, etc. Estes são produtos da indústria humana; materiais naturais transformados em órgãos da vontade humana sobre a natureza, ou da participação humana na natureza. Eles são órgãos do cérebro humano, criados pela mão humana; o poder do conhecimento objectivado. O desenvolvimento do capital fixo indica até que ponto o conhecimento social geral se tornou uma força produtiva imediata, e, portanto, até que ponto, as condições do processo da própria vida social está sob o controlo do intelecto geral e foi transformado de acordo com ele. Até que ponto as forças produtivas sociais foram produzidas, não só sob a forma de conhecimento, mas também como órgãos imediatos da prática social, do processo vital real.

Karl Marx

A REPRODUÇÃO DA VIDA COTIDIANA - Fredy Perlman

"O objetivo dessa comunidade e desses indivíduos é a reprodução dos específicos meios de produção e dos indivíduos com suas características particulares, com as relações e estruturas sociais que os determinam e que eles sustentam ativamente. Todos eles te dizem que em princípio, ou seja, consideradas como idéias abstratas, competição, monopólio, etc., são as únicas bases de vida, mas na prática eles deixam muito a desejar. Todos eles querem a competição sem os efeitos letais da competição. Todos eles querem o impossível: as condições burguesas de existência sem as necessárias conseqüências destas condições. Nenhum deles compreende que a forma burguesa de produção é histórica e transitória, exatamente como a forma feudal o foi. Esse erro decorre do fato de que o homem burguês é para eles a única base possível de cada sociedade; eles não são capazes de imaginar uma sociedade na qual os homens tenham deixado de ser burgueses." Karl Marx

A atividade prática diária dos homens da comunidade tribal reproduz ou perpetua a tribo. Esta reprodução não é apenas física, mas também social. Através de suas atividades diárias, os homens da tribo não se reproduzem apenas como um grupo de seres humanos; eles reproduzem a tribo, ou seja, uma forma social particular no interior da qual esse grupo de seres humanos desempenha atividades específicas de uma maneira específica. As atividades específicas dos homens tribais não são o resultado de características "naturais" dos homens que as desempenham, já o estilo de produção do mel, decorre da natureza da abelha. A vida cotidiana produzida e perpetuada pelos homens tribais é uma resposta social específica às condições materiais e históricas muito peculiares.

A atividade cotidiana dos escravos reproduz a escravidão. Através de suas atividades diárias, os escravos não apenas reproduzem a si mesmos e seus senhores fisicamente; eles também reproduzem os instrumentos com os quais o senhor os reprime, além de sua própria submissão à autoridade do senhor. Para homens que vivem numa sociedade escravocrata, a relação senhor-escravo parece como uma relação eterna e natural. Entretanto, os homens não nascem senhores ou escravos. A escravidão é uma forma social específica, e os homens se submetem a ela apenas em condições materiais e históricas particulares.

A prática cotidiana dos trabalhadores assalariados reproduz o trabalho assalariado e o capital. Através de suas atividades diárias, os homens "modernos", como os homens tribais e escravos, reproduzem a população, as relações sociais e as idéias da sociedade em que vivem; eles reproduzem a forma social da vida cotidiana. Como a tribo e o sistema escravocrata, o sistema capitalista tampouco é a forma natural ou final da sociedade humana. Como as anteriores formas sociais, o capitalismo é uma resposta à condições históricas e materiais específicas.

Diferentemente das formas antecedentes de organização da atividade social, a vida cotidiana na sociedade capitalista transforma sistematicamente as condições materiais a que o capitalismo originalmente correspondeu. Alguns destes limites materiais para a atividade humana são gradualmente submetidos ao controle humano. Num alto nível de industrialização, a atividade prática cria suas próprias condições materiais assim como sua forma social. Portanto, o tema em análise não é apenas como a atividade prática na sociedade capitalista reproduz a sociedade capitalista, mas também como essa atividade por si mesma elimina as condições materiais a que o capitalismo correspondia.


VIDA COTIDIANA NA SOCIEDADE CAPITALISTA

A forma social das atividades regulares das pessoas no capitalismo é a resposta para uma determinada situação material e histórica. A condição material e histórica explica a origem da forma capitalista, mas não explica porque esta forma continua depois que a situação inicial desapareceu. O conceito de "atraso cultural" não é explicação para a continuidade da forma social depois do desaparecimento das condições iniciais às quais ela correspondia. Este conceito é meramente um nome para a continuidade da forma social. Quando o conceito de "atraso cultural" funciona como um nome para a "força social" que determina a atividade humana, isto é uma ofuscação na qual está presente o produto da atividade das pessoas como uma força exterior e fora de seu controle. Isto não é verdadeiro apenas para um conceito como "atraso cultural". Muitos dos termos usados por Marx para descrever atividades das pessoas têm sido elevados ao status de força externa e até mesmo "natural" que determina essa atividade. Portanto, conceitos como "luta de classes", "relações de produção" e particularmente "A Dialética", desempenham a mesma função nas teorias de alguns "marxistas" que "Pecado Original", "Destino" e "A Mão Do Destino" desempenharam nas teorias místicas medievais.

Em suas atividades cotidianas, os membros da sociedade capitalista efetuam simultaneamente dois processos: reproduzem a forma de suas atividades e eliminam as condições materiais na qual essa forma de atividade inicialmente correspondeu. Mas eles não percebem que efetuam esses dois processos. Suas próprias atividades não são transparentes para eles. Eles estão sob a ilusão de que suas atividades são respostas a condições naturais acima de seu controle, e não vêem que eles mesmos são os autores dessas condições. A tarefa da ideologia capitalista é manter o véu que impede as pessoas de ver que suas próprias atividades reproduzem a forma de sua vida cotidiana: a tarefa da teoria crítica é desvendar as atividades da vida cotidiana, torná-las transparentes, fazer com que a reprodução da forma social da atividade capitalista seja visível nas atividades cotidianas das pessoas.

Sob o capitalismo, a vida cotidiana consiste em atividades relacionadas que reproduzem e expandem a forma capitalista de atividade social. A venda do tempo de trabalho por um preço (salário), a objetivação do tempo de trabalho em mercadorias (bens vendáveis, tangíveis e intangíveis) , o consumo de mercadorias tangíveis e intangíveis (tais como consumidor de bens e espetáculos) - essas atividades que caracterizam diariamente a vida sob o capitalismo não são manifestações da "natureza humana"; tampouco são elas impostas ao homem por forças acima de seu controle. (...)


ALIENAÇÃO DA ATIVIDADE VITAL

Na sociedade capitalista, a atividade criativa assume a forma de produção de mercadorias e os produtos da atividade humana assumem a forma de mercadorias. Os produtos da atividade humana necessários para a sobrevivência são mercadorias vendáveis: elas são obtidas em troca de dinheiro. E o dinheiro só é obtido na troca por mercadorias. Se os homens aceitam a legitimação dessas convenções, se aceitam que as mercadorias são um pré-requisito para o dinheiro e o dinheiro é um pré-requisito para a sobrevivência, então eles estão aprisionados num círculo vicioso. Para aqueles que não possuem mercadorias, a única saída desse círculo é considerar a si mesmo ou parte de si mesmo como mercadoria. E esta é, de fato, a "solução" peculiar que o homem impôs a si mesmo em condições materiais e históricas específicas. Os homens não trocam seus corpos ou partes de seus corpos por dinheiro. Eles trocam o conteúdo criativo de suas vidas, sua atividade prática diária, por dinheiro.

Tão logo o homem aceita o dinheiro como um equivalente para a vida, a venda da atividade torna-se uma condição para sua sobrevivência física e social. A vida é trocada pela sobrevivência. Criação e produção passam a significar atividade vendável. E o próprio homem se torna um membro produtivo da sociedade apenas se ou na medida em que as atividades de sua vida cotidiana são atividades vendáveis. A atividade do homem é "produtiva", útil à sociedade, apenas quando é uma atividade vendida. Tão logo as pessoas aceitam os termos desta troca, a atividade diária toma a forma de prostituição universal.
O poder criativo vendido, ou a atividade diária vendida, assume a forma de trabalho. O trabalho é uma forma historicamente específica de atividade humana. O trabalho é uma atividade abstrata que possui apenas uma peculiaridade: a de ser trocado ou comercializado, de poder ser vendido por uma dada quantidade de dinheiro. O trabalho é uma atividade indiferente: indiferente à tarefa particular desempenhada e indiferente à finalidade para a qual é direcionada. Escavar, imprimir e esculpir são atividades diferentes, mas todas as três são trabalho na sociedade capitalista. Trabalho é simplesmente "ganhar dinheiro". A atividade que assume a forma de trabalho é uma maneira de se obter dinheiro. A vida se torna um meio de sobrevivência.

Este reverso irônico não é um clímax dramático de uma novela imaginária; é um fato da vida diária na sociedade capitalista. Sobrevivência, ou seja, produção e reprodução, não são objetivos de uma atividade prática criativa. Muito pelo contrário, a atividade criativa sob a forma de trabalho, ou seja, atividade vendida, é uma necessidade penosa para a sobrevivência; trabalho é meio de auto-preservação e reprodução.

A venda da atividade leva à outro reverso. Através da venda, o trabalho de um indivíduo torna-se propriedade de um outro, isto é, apropriado por um outro, fica sob controle de um outro. Em outras palavras, a atividade de uma pessoa torna-se atividade de uma outra, a atividade de seu proprietário; ela torna-se alienada da pessoa que a desempenha. Portanto, a vida, a realização de um indivíduo no mundo, a diferença que sua vida faz na vida da humanidade, não são apenas transformadas em trabalho, uma condição dolorosa para a sobrevivência; elas são transformadas em atividade alienada, atividade desempenhada pelo comprador daquele trabalho. Na sociedade capitalista, os arquitetos, os engenheiros, os trabalhadores não são os construtores; o homem que compra o seu trabalho é o construtor; seus projetos, cálculos e atos são alienados, pois suas atividades, suas realizações pertencem ao capital.

Sociólogos acadêmicos (que encaram a venda da força de trabalho como uma concessão) entendem a alienação do trabalho como um sentimento: a atividade dos trabalhadores "aparece" alienada do trabalhador, este "parece" ser controlado por outro. Entretanto, qualquer trabalhador é capaz de explicar a um sociólogo acadêmico que a alienação é tampouco sentimento ou uma idéia na cabeça, mas um fato real na vida cotidiana dos trabalhadores. A atividade vendida é, de fato, alienada do trabalhador; seu trabalho é, de fato, comprado pelo capitalista.

Em troca de sua atividade vendida, o trabalhador recebe dinheiro, o meio de sobrevivência convencionalmente aceito na sociedade capitalista. Isto revela uma diferença peculiar ao dinheiro, como "equivalente universal". Uma pessoa pode vender mercadorias por dinheiro e pode comprar as mesmas mercadorias com dinheiro. Pode vender sua atividade por dinheiro, mas não pode comprar sua atividade com dinheiro.

As coisas que o trabalhador compra com seu salário são antes de tudo mercadorias de consumo necessárias à sua sobrevivência, para produzir sua força de trabalho, de modo a poder continuar vendendo-a. Mas essas mercadorias são também objetos para admiração passiva: espetáculos dos quais ele é o espectador. O trabalhador consome e admira os produtos da atividade humana passivamente. Ele não existe no mundo como um sujeito ativo que o transforma, mas como um coitado, um espectador impotente; ele pode chamar esse estado de impotente admiração de "felicidade". E mesmo que o trabalho seja penoso, ele pode desejar ser "feliz", ou seja, não-ativo por toda sua vida (uma condição similar a estar morto em vida). As mercadorias, os espetáculos o consomem; ele consome energia viva em admiração passiva; ele é consumido pelas coisas. Neste sentido, quanto mais ele tem, menos ele é. (Um indivíduo pode superar sua morte em vida através de atividades criativas marginais; mas a população não pode, exceto abolindo a forma capitalista de atividade prática, abolindo o trabalho assalariado e portanto desalienando a atividade criativa).


O FETICHISMO DAS MERCADORIAS


Alienando suas atividades e incorporando-as em mercadorias (receptáculos materiais de trabalho humano), as pessoas reproduzem a si mesmas e criam o capital. Do ponto de vista da ideologia capitalista, e particularmente dos economistas acadêmicos, esta afirmação é falsa: as mercadorias "não são produtos do trabalho somente"; elas são produzidas pelos "fatores de produção" primordiais, Terra, Trabalho e capital, a Santíssima Trindade capitalista. O "fator" principal e, obviamente, o herói dessa peça é o capital.

O objetivo dos defensores dessa trindade superficial não é a análise, posto que a análise não é aquilo que esses especialistas são pagos para fazer. Eles são pagos para ofuscar a forma social de atividade prática sob o capitalismo, para encobrir o fato de que os produtores reproduzem a si mesmos, seus exploradores, assim como os instrumentos com os quais eles são explorados. A fórmula da trindade não é suficientemente convincente. É óbvio que a Terra não produz mercadorias, assim como a água, o ar ou o sol. (...) Mesmo os instrumentos de produção que são o Capital de um capitalista são "fatores de produção" primordiais apenas se alguém limita seu campo visual a uma firma capitalista isolada. A visão da economia como um todo revela que o Capital de um capitalista suga o trabalho alienado por outro capitalista. Entretanto, ainda que a 'formula da Trindade não convença, ela cumpre sua tarefa de ofuscação ocultando o essencial da questão: em vez de perguntar porque a atividade das pessoas sob o capitalismo assume a forma de trabalho assalariado, analistas em potencial da vida cotidiana capitalista transformados em acadêmicos marxistas domesticados perguntam se o trabalho é ou não o único "fator de produção".

Portanto, a economia (e a ideologia capitalista em geral) trata a terra, o dinheiro e os produtos do trabalho como coisas que possuem o poder de produzir, de criar valores, de trabalhar para seus proprietários, de transformar o mundo. Isto é o que Marx chamou de fetichismo, que caracteriza as opiniões das pessoas, e que são elevadas ao nível de dogma pela economia. Para o economista, as pessoas vivas são coisas ("fatores de produção") e as coisas vivem (o dinheiro "trabalha", o Capital "produz").

O adorador de fetiches (fetichista) atribui o produto de sua atividade ao seu fetiche. Como resultado, ele cessa de exercer sua potência (de transformar a natureza, de determinar a forma e o conteúdo de sua vida cotidiana); ele exerce apenas aqueles "poderes" que atribui para seu fetiche (o "poder" de comprar mercadorias). Em outras palavras, o fetichista se castra e atribui virilidade ao seu fetiche.

Mas o fetiche é uma coisa morta, não um ser vivo; ele não possui virilidade. O fetiche não é nada mais do que uma coisa para a qual e pela qual as relações capitalistas são mantidas. O misterioso poder do capital, seu "poder" de produzir, sua virilidade, não reside nele mesmo, mas no fato de que as pessoas alienam suas atividades criativas, de que elas vendem seu trabalho aos capitalistas, que eles materializam ou reificam (coisificam) seu trabalho em mercadorias. Em outras palavras, as pessoas são compradas com o produto de suas próprias atividades, todavia vêem suas próprias atividades como atividades do Capital e seus próprios produtos como produtos do capital. Atribuindo poder criativo ao Capital e não à sua própria atividade, abdicam de sua atividade, de sua vida cotidiana em benefício do capital. Isto significa que, diariamente, os trabalhadores se coisificam, sacrificando-se para a personificação do capital, o capitalista.

Vendendo seu trabalho, alienando sua atividade, as pessoas reproduzem diariamente as personificações das formas dominantes de atividade sob o capitalismo, elas reproduzem o trabalhador assalariado e o capitalista. Eles não apenas reproduzem os indivíduos fisicamente, mas também socialmente; eles reproduzem indivíduos que são vendedores da força de trabalho e indivíduos que são proprietários dos meios de produção, eles reproduzem os indivíduos assim como suas atividades específicas, a venda assim como a propriedade.

Toda vez que as pessoas desempenham uma atividade que elas mesmas não definiram e não controlam, toda vez que pagam por mercadorias que produziram com dinheiro recebido em troca de sua atividade alienada, toda vez que admiram passivamente os produtos de sua própria atividade como objetos alienados adquiridos pelo dinheiro, elas dão vida nova ao Capital e aniquilam suas próprias vidas.

O resultado desse processo é a reprodução da relação entre o trabalhador e o capitalista. Entretanto, não é esse o objetivo dos indivíduos envolvidos. Suas atividades não são transparentes para eles; seus olhos estão fixados no fetiche que se mantém entre o ato e o resultado. O agente individual mantém os olhos fixados nas coisas, principalmente naquelas coisas pelas quais as relações capitalistas são estabelecidas. O trabalhador como produtor deseja trocar seu trabalho diário por salário em dinheiro, ele deseja precisamente as coisas que os capitalistas têm para vender, visando a realizar seu capital.

A transformação diária da atividade vital em Capital é mediada por coisas, mas não é efetuada pelas coisas. O fetichista não sabe disso: para ele trabalho e terra, instrumentos e dinheiro, empresários e banqueiros, são todos "fatores" e "agentes". Quando um caçador, que porta um amuleto, abate um cervo com uma pedra, ele talvez considere o amuleto um "fator" essencial para o seu êxito, até mesmo efetuando magicamente a presença do cervo como uma presa a ser abatida pelo caçador. Se ele é um fetichista responsável e bem educado, devotará atenção para seu amuleto, cuidando-o e admirando-o. Para melhorar as condições materiais de sua vida, tentará aperfeiçoar o seu fetiche, não a maneira de atirar a pedra; ele talvez até envie seu amuleto para "caçar" por ele. Suas próprias atividades diárias não são transparentes para ele: quando come bem, não consegue ver que é sua própria ação de atirar a pedra e não a ação do amuleto, que provê sua comida; quando está faminto, não consegue ver que é sua adoração do amuleto ao invés de caçar, e não a ira de seu fetiche, a causa de sua fome.

O fetichismo das mercadorias e do dinheiro, a mistificação das atividades diárias das pessoas, a religião da vida cotidiana que atribui atividade a coisas inanimadas, não é um capricho mental nascido das imaginações dos homens; ele tem origem no caráter das relações sociais sob o capitalismo. Os homens de fato se relacionam uns com os outros através de coisas; o fetiche é de fato a ocasião na qual eles agem coletivamente e através da qual eles reproduzem suas atividades. Mas não é o fetiche que atua. Não é o Capital que transforma matérias primas, nem tampouco o Capital produz mercadorias. Se a atividade vital dos homens não transformasse esses materiais, eles se manteriam inertes, matéria morta. Se os homens não se dispusessem a continuar vendendo sua atividade, a impotência do Capital seria revelada. O Capital deixaria de existir, sua última potência remanescente seria o poder de lembrar as pessoas de um passado em que a vida cotidiana se caracterizava pela prostituição universal e diária.

O trabalhador aliena sua vida para preservar sua vida. Se ele não vendesse sua atividade ele não ganharia um salário e não poderia sobreviver. Entretanto, não é o salário que faz da alienação a condição de sobrevivência. Se os homens decidissem coletivamente não vender suas vidas, se eles estivessem dispostos a assumir o controle sobre suas próprias atividades, a prostituição universal não seria uma condição para a sobrevivência. É a disposição das pessoas para continuar vendendo sua atividade, e não as coisas pelas quais eles a vendem que faz com que a alienação da atividade seja necessária para a preservação da vida.

A atividade vendida pelo trabalhador é comprada pelo capitalista. E é apenas essa atividade que respira vida no Capital e o faz "produtivo". O capitalista, "proprietário" de matérias-primas e instrumentos de produção, exibe os objetos naturais e produtos do trabalho de outras pessoas como sua própria "propriedade privada". Mas não é o misterioso poder do Capital que cria a "propriedade privada" do capitalista; a atividade vital é que cria a "propriedade privada" e a forma dessa atividade é o que a mantém "privada".


TRANSFORMAÇÃO DA ATIVIDADE VITAL EM CAPITAL


A transformação da atividade vital em Capital efetua-se diariamente através das coisas, mas não pelas coisas. As coisas que são produtos da atividade humana parecem ser agentes porque as atividades e contatos são estabelecidos para e através de coisas e porque a atividade das pessoas não são transparentes para elas. Elas confundem a mediação do objeto com a causa do processo.

No processo capitalista de produção, o trabalhador incorpora ou materializa sua energia alienada num objeto inerte usando instrumentos que são materializações de atividades de outras pessoas (instrumentos industriais sofisticados incorporam a atividade intelectual e manual de incontáveis gerações de inventores, aperfeiçoadores e produtores do mundo inteiro e das mais variadas formas de sociedade). Os instrumentos por si mesmos são objetos inertes; eles são a incorporação material da atividade vital, mas não estão vivos. O único agente ativo no processo de produção é o trabalhador. Ele usa produtos do trabalho de outras pessoas e infunde-lhes vida, que é a vida dele mesmo; ele não é capaz de ressuscitar os indivíduos que estocaram atividades em seu instrumento. O instrumento talvez lhe permita fazer mais durante um período dado, e neste sentido, talvez eleve sua produtividade. Mas apenas o trabalho vivo é capaz de produzir e pode ser produtivo.

Por exemplo, quando um trabalhador industrial dirige um torno mecânico, ele usa produtos do trabalho de gerações de físicos, inventores, engenheiros, fabricantes de torno mecânico. Ele é obviamente mais produtivo do que o artesão que esculpe o mesmo objeto. Mas não faz sentido considerar que o "capital" a disposição do trabalhador industrial é mais "produtivo" do que o "capital" do artesão. (...)

A noção de "produtividade do capital", e particularmente, a medição detalhada da "produtividade" são invenções da "ciência" da Economia, aquela religião da vida diária do capitalista que consome a energia das pessoas na adoração, admiração e adulação do fetiche central da sociedade capitalista. Colegas medievais desses "cientistas" efetuaram detalhadas medidas de largura e altura dos anjos no céu, sem ao menos perguntar se os anjos e o céu existiam, porque tinham certeza da existência de ambos.

O resultado da atividade alienada do trabalhador é o produto que não lhe pertence. Este produto é uma mercadoria, uma incorporação de seu trabalho, a materialização de parte de sua vida, o receptáculo que contém sua atividade alienada. Ele não decide o que, como e quando fazer; ele não dirige sua atividade nem é dono do que faz. Se ele quiser apossar-se do que fez, será como comprador. Mas o que ele tem feito não é apenas um produto com algumas utilidades. Se ele não precisasse vender seu trabalho para o capitalista em troca de um salário, teria apenas que escolher os materiais necessários e as ferramentas disponíveis para produzir, guiado pelos seus objetivos e limitado por seus conhecimentos e habilidades. (É óbvio que um indivíduo só pode fazer isso marginalmente. A livre apropriação e o uso de materiais e ferramentas disponíveis pelos homens somente acontecerão quando o trabalho, enquanto atividade alienada pelo capital, e o próprio Capital forem abolidos).

O que o trabalhador produz em condições capitalistas é um produto com uma propriedade muito específica, a de ser vendido. O que sua atividade alienada produz é uma mercadoria.

A produção capitalista é produção de mercadorias. Logo, afirmar que o objetivo do processo é a satisfação de necessidades humanas é falsa; isto é, uma racionalização e uma apologia. A satisfação de necessidades humanas não é o objetivo do capitalista ou do trabalhador engajado na produção, tampouco é o resultado do processo. O trabalhador vende seu trabalho por um salário; o conteúdo específico do salário é indiferente para ele; ele não aliena seu trabalho para um capitalista que não lhe dê um salário, não importa quantas necessidades humanas esses produtos capitalistas possam satisfazer. O capitalista compra trabalho e o engaja na produção de mercadorias. O capitalista permanece indiferente às propriedades específicas do produto e às necessidades das pessoas. Tudo que lhe interessa a respeito do produto é por quanto ele será vendido, e tudo que lhe interessa a respeito da necessidade das pessoas é quanto elas "precisam" para comprar e como elas podem ser coagidas, através da propaganda e do condicionamento psicológico para "precisar" de mais. O objetivo do capitalista é satisfazer sua necessidade de acumular o capital, e o resultado desse processo é a reprodução ampliada do trabalho assalariado e do Capital (que não são exatamente "necessidades humanas").

A mercadoria produzida pelo trabalhador é trocada pelo capitalista por uma específica quantidade de dinheiro. A mercadoria é um valor que se troca por um valor equivalente. Em outras palavras o trabalho (passado e presente) materializado no produto pode existir sob duas formas distintas e equivalentes, mercadoria e dinheiro, ou no que é comum a ambos, valor. Isso não significa que valor é trabalho. Valor é uma forma social de trabalho reificado (coisificado) na sociedade capitalista.

Sob o capitalismo, as relações sociais não são estabelecidas diretamente; elas são estabelecidas através do valor. A atividade cotidiana não é trocada diretamente; ela é trocada sob a forma de valor. Consequentemente, o que acontece com a atividade sob o capitalismo não pode ser descrito observando a atividade em si mesma, mas apenas seguindo as metamorfoses do valor.

Quando a atividade das pessoas toma a forma de trabalho (atividade alienada), torna-se possível comprá-la, porque adquire a forma de valor. Em outras palavras, o trabalho pode ser trocado por uma quantidade de dinheiro "equivalente" (salário). A alienação deliberada da atividade, que é percebida como necessária para a sobrevivência pelos membros da sociedade capitalista, reproduz a forma capitalista na qual a alienação é necessária para a sobrevivência. Porque a atividade tem a forma de valor, os produtos dessa atividade devem também assumir a forma de valor: eles devem ser cambiáveis por dinheiro. É óbvio que, se os produtos da atividade humana não assumem a forma de valor, mas a de objetos úteis à disposição da sociedade, então eles permaneceriam nas fábricas ou iriam ser pegos de graça pelos membros da sociedade quando a necessidade surgisse; neste caso, o dinheiro não teria valor e a atividade não poderia ser vendida por uma quantidade de dinheiro "equivalente". A atividade não poderia ser alienada. Consequentemente, assim que atividade assume a forma de valor, os produtos dessa atividade assumem a forma de mercadoria e a reprodução da vida cotidiana toma lugar através das mudanças ou metamorfoses do valor.

O capitalista vende os produtos do trabalho no mercado; ele os troca por uma equivalente quantidade de dinheiro; ele realiza um determinado valor. A magnitude específica desse valor num mercado particular é o preço dessas mercadorias. Para o economista acadêmico, o preço é a chave de São Pedro para os portões do céu. Como o próprio capital, o preço se move num mundo maravilhoso que consiste inteiramente de objetos; os objetos tem relações humanas uns com os outros e são vivos; transformam-se uns aos outros, comunicam-se uns com os outros, eles se casam e têm filhos. E é claro, é somente através desses inteligentes, poderosos e criativos objetos que as pessoas podem ser felizes na sociedade capitalista.

Nas pinturas dos economistas, os anjos, trabalhadores celestiais, fazem tudo e os homens nada fazem. Os homens simplesmente gozam o que os anjos fazem para eles. Não apenas o Capital produz e o dinheiro trabalha; outros misteriosos seres possuem virtudes similares. Portanto, Oferta, uma quantidade de coisas que são vendidas; e Procura, uma quantidade de coisas que são compradas, determinam o preço, uma quantidade de dinheiro. Quando a Oferta e a Procura se casam num ponto particular do diagrama, elas dão à luz o ponto de equilíbrio dos preços, que corresponde a um estado universal de bem-aventurança. As atividades da vida cotidiana são desempenhadas pelas coisas, e as pessoas são reduzidas à coisas ("fatores de produção") durante suas horas "produtivas" e em espectadores passivos de coisas durante o seu tempo de lazer. O mérito do economista consiste em atribuir o produto da atividade cotidiana das pessoas às coisas e em não ver a atividade das pessoas por trás da extravagância das coisas. Para o economista, as coisas (por meio das quais a atividade das pessoas é regulada pelo capitalismo) são elas mesmas mães e filhos, causas e efeitos de sua própria atividade.

A magnitude do valor - ou seja, do preço da mercadoria, a quantidade de dinheiro pela qual é trocada - não é determinada pelas coisas mas pela atividade diária das pessoas. Procura e oferta, concorrência perfeita e imperfeita nada mais são do que formas sociais de produtos e atividades na sociedade capitalista; elas não têm vida própria. O fato de aquela atividade ser alienada, de que o tempo de trabalho é vendido por uma quantidade específica de dinheiro, de que isso possui um certo valor tem algumas conseqüências para a magnitude do valor dos produtos daquele trabalho. O valor das mercadorias vendidas deve ser no mínimo igual ao do tempo de trabalho que nelas foi incorporado. Isto é aplicável tanto à firma capitalista como à sociedade. Se o valor das mercadorias vendidas pelo capitalista individual fosse menor do que o valor do tempo de trabalho nelas, a firma logo iria à falência. Socialmente, se o valor das mercadorias produzidas for menor do que o valor investido em sua produção, a força de trabalho não consegue reproduzir-se, nem tampouco reproduzir os capitalistas. Todavia, se o valor das mercadorias for igual ao do tempo investido na sua produção, os trabalhadores reproduzem meramente a si mesmos e a sociedade já não seria uma sociedade capitalista; sua atividade poderia consistir em produção de mercadorias mas não seria uma produção capitalista de mercadorias.

Para o trabalho criar capital, o valor dos produtos de trabalho devem ser maiores do que o valor do trabalho. Em outras palavras, a força de trabalho deve produzir um sobreproduto, uma quantidade de bens que ela não consome e esse sobreproduto deve ser transformado em sobrevalor ou mais-valia, uma forma de valor que não é apropriada pelos trabalhadores como salários, mas pelos capitalistas como lucro. Posteriormente, o valor dos produtos do trabalho deve ser ainda maior, porque o trabalho vivo não é a única espécie de trabalho materializado neles. No processo de produção, os trabalhadores gastam sua própria energia, mas também utilizam o trabalho morto, estocado sob a forma de instrumentos, e transformam matérias-primas nas quais foi dispendido um trabalho prévio.

Isso leva a um estranho resultado: o valor dos produtos do trabalhador e o valor de seu salário são de magnitudes diferentes, ou seja, que a quantidade de dinheiro recebida pelo capitalista quando vende as mercadorias produzidas por seus trabalhadores empregados é diferente da quantidade que ele paga aos trabalhadores. Esta diferença não é explicada pelo fato de que os materiais usados e ferramentas devem ser pagos. Se o valor de uma mercadoria vendida fosse igual ao valor de um trabalho vivo e os instrumentos, não haveria lugar para os capitalistas. O fato é que a diferença entre essas duas magnitudes deve ser grande o bastante para sustentar a classe capitalista - não apenas os indivíduos, mas também a atividade específica que estes indivíduos estão engajados, ou seja, a compra da força de trabalho. A diferença entre a venda total dos produtos e o valor do trabalho gasto em sua produção é a mais-valia, a essência do capital.
Para desvendar a origem da mais-valia é necessário examinar porque o valor do trabalho é menor do que o valor das mercadorias produzidas por ele. A atividade alienada do trabalhador transforma materiais com a ajuda de instrumentos e produz uma certa quantidade de mercadorias. Entretanto, quando essas mercadorias são vendidas e os materiais e instrumentos usados foram ressarcidos, os trabalhadores não recebem o valor remanescente como salários; a eles é dado menos. Em outras palavras, durante o dia de trabalho, os trabalhadores exercem uma certa quantidade de trabalho não pago, trabalho forçado, pelo qual eles não recebem o equivalente.

Esse trabalho não pago, esse trabalho forçado é outra "condição de sobrevivência" para a sociedade capitalista. Entretanto, como a alienação, essa condição não é imposta pela natureza, mas pelas pessoas, por suas atividades cotidianas. Antes da existência de sindicatos, o trabalhador individual aceitava qualquer trabalho forçado, pois a rejeição do trabalho implicaria que outros trabalhadores o aceitariam, e o trabalhador individual não receberia salário. Os trabalhadores competiam uns com os outros pelos salários oferecidos pelos capitalistas; se um trabalhador desistia do emprego por considerar o salário muito baixo, um trabalhador desempregado não via a hora de substituí-lo, porque para o desempregado um salário baixo é melhor do que salário nenhum. Essa competição entre trabalhadores é chamada de "trabalho livre" pelos capitalistas, que fazem grandes sacrifícios para manter essa liberdade dos trabalhadores, uma vez que foi precisamente essa liberdade que preservou a mais-valia do capitalista e tornou-lhe possível acumular capital. Não é por vontade própria que o trabalhador produz mais mercadorias do que é pago para isso. Seu desejo é ganhar um salário o mais alto possível. Entretanto, a existência de trabalhadores desempregados, que não ganham salário algum, e cuja concepção de um salário alto era consequentemente mais modesta do que a de um trabalhador empregado, fez com que fosse possível para o capitalista empregar trabalho por um salário mais baixo. De fato, a existência de trabalhadores desempregados permite ao capitalista pagar o salário mais baixo que os trabalhadores estivessem dispostos a receber para trabalhar. Portanto, o resultado da atividade diária coletiva dos trabalhadores, cada um lutando individualmente pelo maior salário possível, foi baixar o salário de todos. O efeito da competição dos trabalhadores, do cada um por si e contra todos os outros, foi que cada um ganhou o mínimo possível, e o capitalista extraiu o máximo de mais-valia possível.

A prática diária de todos anula os objetivos de cada um. Mas os trabalhadores não sabem que sua situação resulta de sua atitude diária; suas próprias atividades não são transparentes para eles. Para os trabalhadores, o salário baixo parece ser uma simples parte natural da vida, como a doença e a morte, e a redução do salário uma catástrofe natural, como uma enchente ou um inverno intenso. As críticas de socialistas e as análises de Marx, assim como o aumento do desenvolvimento industrial que liberou mais tempo para reflexão, retirou alguns dos véus e fez com que os trabalhadores enxergassem além de suas atividades. Entretanto, na Europa Ocidental e nos EUA, os trabalhadores não repudiaram a forma capitalista da vida cotidiana; eles formaram sindicatos. E em condições materiais diferentes, na Rússia e na Europa Oriental, os trabalhadores substituíram a burguesia por um estado burocrático que compra trabalho alienado e acumula Capital em nome de Marx.

Com os sindicatos, a vida cotidiana é semelhante ao que era sem eles. Na verdade, é quase igual. A vida cotidiana continua a consistir em trabalho (atividade alienada) forçado e não pago. O trabalhador sindicalizado não mais negocia os termos de sua alienação; funcionários do sindicato fazem isso por ele. Os termos pelos quais a atividade do trabalhador é alienada não são mais guiados pela necessidade individual do trabalhador de aceitar o que é possível. Agora, os trabalhadores são guiados pela necessidade burocrática do sindicato de manter sua posição como um intermediário entre os vendedores e compradores de trabalho.

Com ou sem sindicatos, mais-valia não é um produto da natureza ou do capital; é criada pela atividade cotidiana das pessoas. No desempenho de suas atividades cotidianas, as pessoas não estão somente dispostas a alienar essas atividades, elas também estão dispostas a reproduzir as condições em que são forçadas a alienar suas atividades, reproduzir Capital e portanto o poder do Capital para comprar trabalho. Isto não é porque eles não saibam "qual é a alternativa". Uma pessoa que é incapacitada por indigestão crônica porque come muita gordura não continua comendo gordura porque não sabe "qual é a alternativa". Ou ela prefere ser incapaz de desistir da gordura ou não é claro para ela que seu consumo diário de gordura causa sua incapacidade. E se seu doutor, pastor, professor e político diz à ela, primeiro, que a gordura é o que a mantém viva, e segundo, que eles já fazem tudo que ela faria se ela estivesse bem, então não surpreende que sua atividade não seja transparente para ela e que ela não se esforce para fazê-la transparente.

A produção de mais-valia é uma questão de sobrevivência, não para a população, mas para o sistema capitalista. A mais-valia é a porção do valor das mercadorias produzidas pelo trabalho que não retorna aos trabalhadores. Pode ser expressa em mercadorias ou em dinheiro (exatamente como o Capital pode ser expresso como quantidade de mercadorias ou de dinheiro), mas isso não altera o fato de que é uma expressão para o trabalho materializado que é estocado numa dada quantidade de produtos. Desde que os produtos podem ser trocados por uma "equivalente" quantidade de dinheiro, o dinheiro representa o valor dos produtos.

O dinheiro pode, de volta, ser trocado por outra quantidade de produtos de valor "equivalente". O conjunto dessas trocas, que ocorrem simultaneamente na vida cotidiana capitalista, constitui o processo capitalista de circulação. É assim que a metamorfose da mais-valia em Capital acontece.

A porção de valor que não retorna ao trabalhador, ou seja, a mais-valia, permite a existência do capitalista, e também lhe permite fazer muito mais do que simplesmente existir. O capitalista investe uma porção da mais-valia; ele emprega novos trabalhadores e compra novos meios de produção; ele expande seu domínio. Isso significa que o capitalista acumula novo trabalho, ambos na forma de trabalho vivo que ele emprega e do trabalho passado (pago e não pago), que é estocado nos materiais e máquinas que compra.

A classe capitalista como um todo acumula a mais-valia do trabalho da sociedade, mas esse processo ocorre numa escala social e consequentemente não pode ser visto se observarmos apenas as atividades de um capitalista. Cabe lembrar que os produtos comprados por um capitalista como instrumentos tem as mesmas características dos produtos que ele vende. Um capitalista vende instrumentos para outro capitalista por uma dada quantidade de valor, e apenas uma parte desse valor é devolvido aos trabalhadores como salários, a parte restante é mais-valia, com a qual o primeiro capitalista compra novos instrumentos e trabalho. O segundo capitalista compra os instrumentos por um dado valor, o que significa que ele paga pela quantidade total de trabalho extorquida pelo primeiro capitalista, tanto o trabalho pago quanto o trabalho não pago. Isso significa que os instrumentos acumulados pelo segundo capitalista contém o trabalho não pago extorquido pelo primeiro. O segundo capitalista, de volta, vende seus produtos por um dado valor e devolve apenas uma porção de seu valor a seus trabalhadores; ele usa o restante para novos instrumentos e trabalho.

Se todo o processo fosse comprimido num único período de tempo, e se todos os capitalistas fossem agregados em um, seria visto que o valor com o qual o capitalista adquire novos instrumentos e trabalho é igual ao valor dos produtos que ele não retornou aos produtores. Esse trabalho acumulado em mais-valia é capital.

Nos termos da sociedade capitalista como um todo, o Capital total é igual a quantidade de trabalho não pago efetuado por inumeráveis gerações de seres humanos, cujas vidas consistiram na alienação diária de sua atividade. Em outras palavras, o Capital para o qual os homens vendem seus dias de vida, é o produto da atividade vendida de homens, e é reproduzido e expandido sempre que um homem vende outro dia de trabalho, a cada momento que ele decide continuar vivendo na forma capitalista da vida cotidiana.


ESTOQUE E ACUMULAÇÃO DA ATIVIDADE HUMANA


A transformação do trabalho excedente em Capital é a forma histórica específica de um processo mais geral, o processo de industrialização, a transformação permanente do meio ambiente material do homem.

Certas características essenciais dessa conseqüência da atividade humana sob o capitalismo podem ser compreendidas por meio de uma ilustração simplificada. Numa sociedade imaginária, as pessoas gastam a maior parte de seu tempo ativo produzindo comida e outras necessidades. A atividade excedente pode ser dedicada à produção de alimentos para sacerdotes e guerreiros, ambos improdutivos. Pode, também, ser dedicada para produzir bens que são queimados em rituais sagrados ou mesmo usados em cerimônias ou exercícios de ginástica. Em qualquer um desses casos, as condições materiais de existência dessas pessoas não mudam, de uma geração para outra, como resultado de suas atividades cotidianas. Todavia, uma geração pode estocar a produção excedente, em vez de consumi-la. O trabalho excedente estocado da geração anterior irá prover a nova geração com uma quantidade ainda maior de tempo de trabalho excedente. Num período relativamente curto, o trabalho estocado irá exceder o tempo de trabalho disponível para qualquer geração; com o baixo consumo de energia, as pessoas dessa sociedade imaginária seriam capazes de provisionar-se para a maioria das tarefas necessárias e também para as tarefas das futuras gerações. A maioria das horas que eles gastaram produzindo utilidades seria agora disponível para atividades ditadas não pela necessidade mas pela imaginação.

À primeira vista, não parece razoável que as pessoas se dediquem à bizarra tarefa de produzir e estocar excedentes. Isso lhes parece um absurdo: se elas mesmas podem consumir, é improvável que estoquem para futuras gerações o que seria apenas suficiente para realizar um maravilhoso espetáculo em dias festivos.

Entretanto, se as pessoas não se dispuseram de suas próprias vidas, se sua atividade não lhes pertencia, se sua prática consistiu em trabalho forçado, então essa atividade humana alienada pode muito bem ser orientada para a tarefa de estocar tempo de trabalho excedente em receptáculos materiais. A função histórica do capitalismo, função preservada pelas pessoas que aceitaram a legitimidade de outros disporem de suas vidas, consistiu precisamente na estocagem de atividade humana (valor) em receptáculos materiais (mercadorias) por meio do trabalho forçado.

Quando se submetem ao "poder" do dinheiro para comprar trabalho estocado assim como atividade vital, quando aceitam o ''direito" fictício de guardadores de dinheiro para controlar e dispor do estocado tanto quanto da atividade vital da sociedade, as pessoas transformam dinheiro em Capital e os donos do dinheiro em capitalistas.

Esta dupla alienação, a alienação da atividade vital em trabalho assalariado e a alienação da atividade das gerações passadas na forma de trabalho estocado (meios de produção), não é um ato único da história. A relação entre trabalhadores e capitalistas não é uma coisa que se impôs na sociedade em algum momento passado, de uma vez e para sempre. Os homens nunca assinaram um contrato, nem mesmo fizeram um acordo verbal, no qual abdicavam do poder sobre suas atividades e no qual eles desistiam do poder da atividade de todas as gerações futuras, no mundo inteiro.

O Capital veste a máscara da força natural; parece tão sólido como a própria terra; seu movimento aparece tão irreversível como as marés; sua crise apareceu tão inevitável como terremotos e enchentes. Mesmo quando se admite que o poder do Capital é criado pelos homens, talvez seja meramente para inventar a máscara de uma força feita pelo homem, um Frankenstein, cujo poder inspira mais terror do que qualquer outra força natural.

Mas o Capital não é uma força natural nem um monstro, criado pelo homem em algum tempo no passado e que desde então domina a vida humana para sempre.
O poder do Capital não reside no dinheiro, desde que o dinheiro é uma convenção social a qual não tem mais "poder" do que os homens lhe concedem. Quando o homem se recusa a vender seu trabalho, o dinheiro não executa sequer as tarefas mais simples, porque o dinheiro não "trabalha".
(...)
Assim que uma pessoa vende seu trabalho para um capitalista e aceita apenas uma parte de seu produto como pagamento, cria condições para compra e exploração de outras pessoas. Nenhum homem daria voluntariamente seu braço ou seu filho em troca de dinheiro. Todavia, quando um homem deliberada e conscientemente vende sua força de trabalho para adquirir o que necessita para sobreviver, ele não apenas reproduz as condições que continuam a fazer da venda de sua vida uma necessidade para a sua preservação, ele também cria condições que fazem da venda da vida uma necessidade para outras pessoas.
Para transformar o trabalho excedente em capital, o capitalista tem de descobrir uma maneira de guardá-lo em recipientes materiais, em novos meios de produção, e deve empregar novos trabalhadores para ativar os novos meios de produção. Em outras palavras, ele deve aumentar sua empresa, ou começar uma nova empresa noutro ramo de produção. Isso requer a existência de compradores de novos produtos e a existência de pessoas que são pobres o suficiente para desejarem vender sua força de trabalho.

Os capitalistas não reconhecem limites ou obstáculos para suas atividades; a democracia exige liberdade absoluta para o capital. O imperialismo não é apenas o "último estágio" do capitalismo, ele é também o primeiro.

Qualquer coisa que possa ser transformada em em mercadoria é lançada no moinho do capital, esteja na terra dos capitalistas ou na terra do vizinho, seja subterrânea ou esteja sobre a terra, no mar ou no ar, em outros continentes ou mesmo outros planetas, todas as conquistas e conhecimentos obtidos pela exploração da natureza, da alquimia à física, são mobilizados para buscar novos receptáculos materiais que estoquem trabalho, para encontrar novos objetos que alguém possa ser convencido a comprar.

Compradores de velhos e novos produtos são criados por todos os meios possíveis. Novos meios são descobertos e "mercados abertos" pela força e pela fraude. Se falta dinheiro para as pessoas comprarem os produtos dos capitalistas, elas são empregadas pelos capitalistas e pagas para produzir os bens que desejam comprar. Se artesãos locais já produzem o que os capitalistas tem para vender, os artesãos serão arruinados. Se leis ou tradições proíbem o uso de certos produtos, as leis e tradições são destruídas. Se as pessoas não têm desejos físicos ou biológicos, então os capitalistas "satisfazem" seus "desejos espirituais" e empregam psicologos para criá-los. Se as pessoas estão tão saciadas com os produtos dos capitalistas que elas não podem mais usar outros, elas são ensinadas a comprar objetos e espetáculos que não tem uso mas podem ser simplesmente observados e admirados.

Os pobres são encontrados em comunidades pré-capitalistas em cada continente. Se eles não são pobres o bastante para desejar vender seu trabalho quando os capitalistas chegam, eles são empobrecidos pelas atividades dos capitalistas. As terras de caçadores gradualmente tornam-se "propriedade privada" de "proprietários" que usam da violência estatal para restringir os caçadores à "reservas" que não contém caça suficiente para mantê-los vivos. As ferramentas dos camponeses gradualmente tornam-se disponíveis apenas para o mesmo comerciante que generosamente empresta-lhe o dinheiro com o qual compraram as ferramentas, até que as "dívidas" dos camponeses são tão grandes que eles são forçados a vender a terra que nem eles ou qualquer um de seus ancestrais havia comprado. Os compradores de produtos artesanais gradualmente subjugam os vendedores, até chegar o dia em que o comprador decide instalar seus artesãos debaixo do mesmo teto, e provê-los com os instrumentos que facilitam-lhes concentrar suas atividades na produção dos itens de maior lucro. Caçadores independentes como não independentes, camponeses e artesãos, homens livres assim como escravos, são transformados em trabalhadores assalariados. Aqueles que previamente dispunham de suas próprias vidas cessaram de dispor delas precisamente quando mudaram suas condições materiais de vida. Aqueles que, antes, eram conscientes criadores de suas próprias magras existências tornam-se vítimas inconscientes de suas próprias atividades, mesmo enquanto abolem a magreza de suas existências. Os homens que foram muito mas tinham pouco agora tem muito mas são pouco.

A produção de novas mercadorias, a "abertura" de novos mercados, a criação de novos trabalhadores não são três atividades em separado; são três aspectos da mesma atividade. Uma nova força de trabalho é criada precisamente para produzir as novas mercadorias; os salários recebidos por esses trabalhadores são eles mesmos o novo mercado; seu trabalho não pago é a fonte da nova expansão. Barreiras naturais ou culturais não impedem a expansão do capital, a transformação da atividade cotidiana das pessoas em trabalho alienado, a transformação de seu trabalho excedente em "propriedade privada" dos capitalistas. Entretanto, o Capital não é uma força natural; ele é uma série de atividades executadas por pessoas todos os dias; é a forma da vida cotidiana; sua contínua existência e expansão pressupõe apenas uma condição essencial: a disposição das pessoas para continuar alienando suas vidas no trabalho e, portanto, reproduzir a forma capitalista da vida cotidiana.

Kalamazoo, 1969

"A alienação do trabalhador em seu produto significa não apenas que seu trabalho torna-se um objeto, uma existência externa, mas que ele existe fora dele, independentemente, como algo alienado a ele, que isso se torna um poder em si mesmo, enfrentando-o. Isso significa que a vida que ele atribuiu ao objeto o enfrenta, como algo hostil e alienado. Entretanto, essa forma antagônica é transitória; ela cria as condições reais para sua própria abolição ao criar as bases para o desenvolvimento universal do indivíduo. O desenvolvimento real de indivíduos, num contexto onde cada barreira é abolida, conscientiza-os de que não há limites sagrados."